Vertical e Horizontal

E considerando as diagonais.

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Obrigado. Quem dera haver o “Por nada”.

Publicado por angszam em 1 Maio, 2008

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro deu uma valiosa entrevista ao caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo, publicada na edição de domingo, 20 de abril de 2008. Versando sobre o assunto de certo modo desprezado por muitos, o esforço para usurpar terras indígenas em Raposa Serra do Sol – Roraima, por interesses de rizicultores (6, para ser específico) e políticos (dos quais os 90% na região nem sequer são nativos), Viveiros de Castro elucida, expõe equívocos e interesses escusos, sem denuncismo, mas esclarecendo.

Material sem dúvida muito útil para missionários e cristãos ligados à tarefa. Mas não só a estes: Enquanto terra indígena for disputada a tapas jurídicos e corporativistas, ignorando direitos individuais, e o homem de cultura indígena for tratado feito mobília em sua própria casa, a pregação tem obstáculos e a fé corre risco de ser imposta, violando vontades e ficando estéril de Deus. Imposição humana de fé não é coisa cristã; Deus bate à porta, não derruba ela à pontapés.

O agravo da situação viria de que “Os índios não acreditam na idéia de crer, são indiferentes a ela (…)” – viria, caso não houvesse a obra do Espírito no indivíduo ao crer (afinal, antes dessa obra, todo cristão também foi indiferente ao crer). Sem o Espírito a evangelização pode ferir a alma, pode gerar recusa em ouvir, “e como ouvirão, se não há quem pregue?”; a imposição suscita a anulação de quem prega pela ebulição sentimental do ouvinte, seja pelo viés do ultraje/revolta ou da languidez/letargia, e o conseqüente ignorar da anunciação do evangelho.

Certo dispositivo presente na questão de Roraima, interessante a todos os cristãos, não se dá só em meio a tribos e políticas, sempre com os mesmo atores e nos mesmos cenários, só no contexto da evangelização. Se dá também dentro de igrejas e nas relações entre cristãos e outras pessoas: é a imposição aos cristãos pelo homem em meio a um ambiente conturbado; diz-se até que ela vem de Deus, mas pelos seus efeitos e origem isso não se comprova; o Espírito sinaliza, mas o crente olha noutra direção. O ser se dobra a severidade como ela sendo expressão da vontade divina. É a ilusão travestida de fé que é instalada no próximo, e ainda hoje não se leva muito em conta, nem mesmo após os efeitos devastadores terem se dado no indivíduo. Ela não se dá apenas em ambientes neopentecostais ou onde o dogmatismo marcha resoluto, como gostam de pensar muitos. Por outro lado, também existem pessoas e ambientes cristãos livres disso, há que se fazer justiça.

Ao fim da entrevista o antropólogo disse “Enfim, para os indígenas, cada ser é um centro de perspectivas no universo. Se eles fizessem ciência, certamente seria muito diferente da nossa, que de tão inquestionável nos direciona a Deus, ao absoluto, a algo que não podemos refutar, só temos de obedecer.”.

Se a ciência direciona a Deus, não haveria ateísmo em meio científico (embora se afirme que ateísmo não parte de uma crença, mas de uma rejeição dela). Se é pela via do inquestionável que se chega a Deus, então pelo buscar a Deus não se pode encontrá-lo (visto que busca sempre parte de um questionamento interno – Onde está? Como acesso? Há algo mais?); todavia, se verifica o buscar-encontrar. Há imprecisão em dizer que o homem não pode refutar Deus; ele é livre para fazer isso e o faz, a questão é se a refutação logra êxito. Não se é obrigado obedecer a Deus, mas importa mais obedece-lo do que aos homens ou a si mesmo, esse é o entendimento cristão.

Enfim, não é incomum ninguém incorrer no erro que aponta.

Se desejamos ser chamados filhos de Deus, também é coerente sermos pacificadores, além de estarmos em Cristo. Em questões externas, como a de Roraima, ou internas, quando somos quem impõe ou ao aceitarmos imposições no ambiente que se supõe o da fé.

Por ANG

A entrevista: http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup159735,0.htm


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